segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sonho

Sonhava tanto e tão insistentemente com o seu velório, que, quando morreu, pensou que era um sonho.

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domingo, 23 de abril de 2017

Nada

No nada
Tudo encontramos
Menos 
Os fiapos do tecido velho e corriqueiro de que somos feitos.

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sábado, 22 de abril de 2017

Guerra

Guerra mesmo é quando a paz
torna-se uma utopia voraz.

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Com o passar dos anos


Quando a velhice em mim chegar
Quero ser o que sonhei na juventude
Sonhando o que serei na juventude que virá.

E o que sou hoje lá não serei mais
Enquanto estarei deixando de ser
Aquilo que deixei e que fui, atrás.

Dos meus amores, quero as cartas
E as doces lembranças dos beijos
E dos pecados que não vivemos.

Quando a velhice chegar, não quero sofrer
Pelos amores que não vivi por covardia
Ou pêlos que tive quando não os queria.

Ah, quando a velhice chegar
Quero dizer aos meus amigos:
- Fomos mais do que pensávamos.

E se não formos ainda assim direi:
- Sonhamos muito mais que fomos
E vivemos muito mais, porque sonhamos.

Serei doce pelas palavras e lembranças
Forte pelas duras batalhas vencidas
E ditoso pela bem cumprida jornada.

E ainda assim se eu nada dizer, ao morrer
E nada mais de mim restar quero apenas que

Digam que eu era alguém que sonhava.

(Lígia Prado - amiga, mestra e referência para a vida toda. Lígia é uma das pessoas mais importantes na minha vida. Suas palavras, seus versos, suas ironias, sua generosidade e suas inconfudíveis risadas ecoam em mim - sempre e intemsamente.)

Da série documental - Arqueólogos do futuro (Opus I - primeiras palavras)

Para Mario Quintana.

Num século porvir e insondável, quando os arqueólogos de uma outra e mais evoluída civilização fizerem suas primeiras descobertas sobre aquele povo solapado pelas suas próprias ferramentas, arruinado pela sua própria ganância destemperada e fugaz, punido pelo Deus mais implacável de todos chamado vagamente naqueles tempos de natureza, cego pela treva que sempre via no outro... Desde então, muito seria desvelado sobre nós, muito do que nós mesmos não hoe vemos. Inclusive eles foram mais acertivos e respeitosos do que nossos historiadores do século XIX para trás, tão interessados em provar suas teorias e impressões, que ignoravam fatos e qualquer tentativa de imparcialidade para estudar o outro. Esse erro não foi cometido por nossos objetivos e precisos arqueólogos do futuro.
Diante de tal vislumbre, perguntas muitas se acotovelam na consciência de alguns: de que eles nos chamarão quando os nomes que orgulhosamente nos chamamos hoje já tiverem perecido? O que sobrará de nós no futuro para ser estudado? O que pensarão de nós?
Perguntas fáceis para respostas certamente duras e amargas. Farão conosco o que nossa História fez com tantos povos reduzidos pela força da ignorância e do preconceito a termos e reducionismos que jamais poderiam os definir?
Nesta série documental, muitas dessas perguntas tão profundas quanto inúteis serão respondidas pelas mais verídicas, verdadeiras, francas, honestas, reais e autênticas suposições.Como a do mestre Mario Quintana, poeta, tradutor e jornalista, sobre o nosso futuro: 


O supremo castigo

Em todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de todas as metrópoles, existe – e quem é que não viu? – aquele cartaz...
De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio – até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos – estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo inteiro, aquela mesma palavra. E pensarão eles que Coca-Cola era o nome de nosso Deus!

Com admiração pelo mestre Quintana,

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Um dia

Um dia
Um dia desses
Um dia futuro
Arrumo coragem
Reúno tudo que tenho e que tive
De coragem e ousadia
Se for preciso, roubo, compro, peço emprestado para não mais devolver.

Um dia 
Um dia daqueles
Um dia quente
Faço o impensável
Não serei compreendido nem pelos mais próximos
Serei um pária na multidão
Serei tão invisível ou mais do que a moça da limpeza

Que moça?

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Vingança

Como um grito revolucionário, dia desses, ainda explodo de raiva e coloco o disco "A love supreme" do Coltrane para meus vizinhos ouvirem no mais alto e bom som em todos os aparelhos de som que existirem na minha casa. Causará revolta o meu ato terrorista-cultural, mas isso não é nada comparado ao tormento feito de onomatopeias, melodias cansadas e clichês que eles me obrigam a ouvir. Dia desses...me vingo. Certeza suprema.

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Revés

Era uma festa a vida daquele homem meio oblíquo, meio líquido. Festa era a ocasião em que ele fazia-se homem entre desumanidades, entre paradoxos. Até que veio aquele revés, até que veio aquele mal menor, aquela corrosão, aquela erosão tímida e rouca a que Leminski chamava poetica e apropriadamente de mentir verdades.

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Ontem

Não lembro de nada
Nada mesmo
Tudo que vivi ontem ficou
Oco
Ontem
Onde?

Sem gostos
Sem rostos
Sem outros

Naquela manhã hermética
Parecia
Haver um dia em que lembranças são cenários de um circo mambembe
Desmontáveis
Incineráveis
451 é um número que me vinha sempre a mente naquele manhã
Três números, três indagações, três rastros para nenhuma ocasião

Fora de casa
Pensei que um passeio numa manhã de fim de semana
Começo de outro nada
Seria bom, seria memorável
Mas enre minhas altas baixas filosofias
Meu existencialismo de padaria
Constatei, estupefato
Iluminado pelo sol meio besta, meio manso da manhã
Que ontem tinha ido dormir muito cedo
Antes do Jornal que já não mais assistia
Tinha sido uma semana daquelas.

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segunda-feira, 27 de março de 2017

Jazz

Dia de sombras mansas e de descanso. Jazz nos fones enquanto trabalho. Déjà-vu, paramnésia? Não, revivência. Mingus soava demônio em dia de paz. A paz do jazz é feita de homens zangados. A minha zanga enfim mina um mundo, ou aquilo que ele deveria ser e não se tornou. Enfim, mais um dia de ritmados cataclismos.

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Da série polônica: "Não dá voz ao que pensares, nem transforma em ação um pensamento tolo."

"Palavra é prata, silêncio é ouro." 
(Provérbio árabe)

Pensei em dizer, mas não disse. Disse que faria, mas não fiz. Passei a vida ensaiando mentiras que não contei, eis minha maior obra. Mentir que menti.

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Numa madrugada infestada de calores e urgências

“I Know not what tomorrow will bring.”
(Fernando Pessoa, última frase dita por ele no leito de morte – trad. “Eu não sei o que o amanhã trará”) 

Numa madrugada infestada de calores e urgências, ele supôs pela primeira vez quais seriam os motivos que o afligiam desde épocas mais felizes, aparentemente, percebeu a pouca e tênue verdade que o impedia de ver a verdade. Era um monstro claro como a porta do quarto entreaberta, lucidez - megera – que nos arremessa sem aviso no fosso incipiente da consciência associada a um tipo raro de percepção, o bom senso. 


(Leitor, caso você não tenha se reconhecido nessas palavras, dispense essa leitura. Procure literatura mais feliz.)

Assim, em mais um dia sou humanamente forjado pelos rigores do cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano. The End, um ponto final é uma vida.

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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Seis razões sobre o porquê não gosto de praia e uma sobre o motivo de sempre ir

“E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível.” 
(Albert Camus)

Sei o quanto é paradoxal, mas fazemos tanto o que odiamos em nosso cotidiano, que pensei ser coerente continuar a odiar algo, ainda que no período de férias. Sei também que parece estranho alguém não gostar de praia, mas o fato é que eu detesto. Eis as minhas razões:

1 - normalmente as padarias são horríveis, ao menos não tive o prazer de ir a alguma que tivesse esse templo civilizatório que é a padaria, as boas padarias, em tempo. Parece mais uma das minhas estranhices, mas sempre desconfio de cidades ou locais que não tenham boas padarias, que não tenham bares para se beber uma boa cerveja sozinho com um livro e que tenham muitas farmácias. Acho sempre lugares que merecem a nossa desconfiança. Muitos devem pensar que talvez não haja cidades para meu exotismo no Brasil, mas consigo me virar bem em várias, ainda que BH tenha um lugar especial no meu peito. De toda forma, essencial mesmo são as duas primeiras condições, a terceira...bem, justifica-se pelo "slogan": "Coisas melhores para uma vida melhor através da química.".

2 - as pessoas tendem a relaxar e aproveitar silenciosamente o fato de estarem na praia, invejo um pouco essa competência, acho até monástica. Ficar com os pés na areia, aproveitando a brisa, cultivando o ócio ancestral, enfim... Infelizmente, não consigo. Já tentei, mas ficar sem fazer nada é terminantemente difícil para mim, gosto mesmo é de internet rápida, livros, computadores, supermercados bons, padarias civilizatórias, livrarias infinitas, quem sabe mesmo uma fumacinha de carros e um cinza concreto façam bem a minha mente. Talvez. Mas ócio praiano é definitivamente impossível para mim.

3 - irrita-me muito também a frequente impossibilidade de ler jornal de forma honestamente tranquila com rajadas de vento inesperadas que fazem a sessão de cultura sempre voar para longe e a de política ficar engordurada porque caiu na porção de uns camarões meio desconfiados. No final, muitos desses voos parecem proféticos, quase visões de um oráculo, mas a bem da verdade só quero mesmo é ler o jornal.

4 - a comida quase sempre de gosto e confecção duvidosas. Saliento que sempre o chamamento da fome fala mais alto que minhas exigências culinárias, mas como sempre meio contrariado. Talvez sejam as praias que vou com a família, algo entre as praias da massa e as de uma classe média esforçada. Penso que deve haver opções melhores, mas ainda distantes do bolso contido de professor. As cervejas também incomodam, sei que é uma chatice, mas num mundo em que Skol e Brahma reinam, Heineken é uma minoria perseguida e cervejas artesanais são forças estranhas, é difícil ser feliz.

5 - a música, a música, como esquecer... Ainda que reconheça a validade cultural do mais que se escuta na maioria das praias do Brasil, não é o que gosto de ouvir. O máximo que já tive a oportunidade de ouvir foi algo entre Jack Johnson e Bob Marley, que em um mundo repleto de Cláudias, Psiricos, Arrochas, Anitas, etc., parece um bálsamo, mas não é o bastante. 

6 - incomoda também a insistente cobrança para que você goste de praia, para que tenha um sorriso pendurado no rosto sempre, para que você fique no sol ou pegue uma corzinha quando já a tenho, para que você faça castelos de areia com os filhos quando eu prefiro fazê-los com Lego, entre outras cobranças que fazem dos melancólicos, mal humorados e afins seres estranhos a esses espaços de alegria salgada, ensolarada, arenosa e algo gratuita.

7 - entretanto, apesar de tudo listado acima, vou com frequência à praia, porque minha família, minha esposa e minhas filhas gostam por demais e como as amo mais do que odeio praia, submeto-me. Vejo isso como o meu ramadã, o meu jejum anual. Expiação dos pecados. Oportunidade de sublimar os erros. Tempo de praia.

Para Clarice, Isadora e Camila, por Estéfani Martins.

sábado, 5 de novembro de 2016

Uma lenda do baixo

Para Jaco

Os bares não ouviam a sua música. O ouvintes não assobiavam as suas melodias tão órfãs. Sua música não ganhou a eternidade. As gravadoras não sabiam da genialidade desse homem. Feito Cecil, era um incompreendido. Mesmo as vanguardas não o entendiam.
Eu era pouco além de um garoto, louco para ser o Charles Mingus, veja, não um Charles Mingus, o, veja bem, o Charles Mingus. Desde os tempos de banda da escola, eu era o estranho, pois não ouvia aquelas músicas que consumiam a alma e não o contrário, que é o certo. Foi quando, um homem entrou na loja de instrumentos – uma igreja para mim – pois minha mãe pensava que eu morava ou trabalhava lá, nenhum dos dois, eu era um fiel confesso e abnegado daquelas imagens, daquelas esculturas, daquele templo feito de guitarras, gaitas, trombones, saxofones....baixos. Ah! Os baixos, mulheres a ser tocadas e acariciadas, voz rouca e o jazz pouco para traduzir esses encontros. Enfim, lá, um cara e um baixo, contra-baixo, olha o respeito. Mulher grande, seios médios e equilibrados, quadril farto de boa progenitora e mãe dos ritmos que eu sonhava entoar. Ele disse que queria vendê-lo (-la) para mim. Ela parecia feliz. Foi uma pechincha que consumiu a economia de anos e todos viveram felizes entre um acorde e a falta de outro.

VS, ouvindo o pai de todos...Mingus, Mingus, Mingus.

Novas do baixista


Ele montou outro grupo. De Jazz claro...porque montar uma prisão? Chamou dois amigos, conheciam-se desde quando tocavam com as bocas e os dedos sós. Naquele tempo, nas casas, passou a solar desvairadamente. Entre amigos, tudo é possível. Por isso, a banda virou um duo de sucesso. Passaram a tocar música clássica, porque lá as partituras valem mais. Ele, desolado, continuou a solar sozinho nos bares repletos de mesas reservadas pela ausência.


VS, ainda ouvindo o mestre Mingus.

Sobre a morte

Ontem morreu mais um mestre eterno da dramaturgia brasileira, Paulo Autran, segundo a viúva, a atriz Karin Rodrigues, ele manifestou o desejo de ser cremado. Ela completou dizendo que para o ateu Paulo Autran: "A verdadeira crença do Paulo era no ser humano e na arte". Fico às vezes pensando como a morte é ingrata, se como os gregos pensavam, ela for uma entidade, vai ser infeliz nas suas escolhas e equivocada nos seus alvos no raio que a parta, porque tem tantas figuras públicas por aí...vociferando bobagens inoportunas que não mereciam se quer lugar numa mesa de buteco. Daí, fico triste e emocionado por ver gente desse quilate ir embora, ainda que do alto dos seus 85 anos, ele poderia ter ficado um bocadinho mais, feito mais umas peças, visto mais umas belezas na vida, ido a mais alguns museus, talvez fumado mais uns cigarrinhos regados por um bom vinho. Dizem por aí, que grandes homens não são medidos por suas virtudes, mas por seus vícios e pelo número e pela qualidade dos seus amigos. Mesmo à distância, acho ou idealizo que ele foi um grande homem mesmo, desses que se faz em poucas e escassas safras. E é nessas horas que fico injuriado com a morte e digo muitas vezes em alto e claro som: por quê vão os bons e vão ficando essa variedade besta de homens mais afeitos ao presente, ao fugaz, à grana, etc.? Por que os eternos vão embora e nos deixam as boas lembranças, mas como ficamos sem suas atitudes corajosas, sem seu ímpeto, sem seu exemplo? Hoje é um dia triste! Ficam as atuações brilhantes então, além do teatro, sua casa mais encantada e brilhante, para nós que podemos aproveitar pouco desse gênio por causa da pouca idade, fica a imagem da televisão na novela "Guerra dos sexos", ele e a diva Fernanda Montenegro, trocando delicadas ofensas enquanto jogavam um no outro o que tinha à mesa, improviso genial e eterno. Clássico. Isso fica, o resto passa. Obrigado Paulo Autran.

Estéfani, ouvindo uma casa silenciosa num sábado triste, bobo e quente.

O tubista

Numa manhã, dessas meio bestas, meio úmidas
Ouço sem cerimônias uma banda tocar
No meio disso
Lembro da tuba
Do bombardão
.
.
.
Experimento uma cosmovisão
Que entrega
Que desapego
Apresento-lhes: o tubista.

Grande homem dos bastidores das bandas, das filarmônicas, das sinfônicas e de tudo quanto há de aglomerados mais ou menos inspirados de músicos. Nesses grupos, não se vê a tuba esmerando-se em solos, em arpejos, porque o lugar dela é no pano de fundo das orquestras, esquecida em sua gravidade.
Além desses atributos capuchinhos, ao tubista especialmente aos mais modestos em suas posses, ressalto a arte imprescindível de fazer caber esse generoso instrumento em seus carros populares, quem sabe até equilibrando-se em motonetas, motocas e lambretas, mas nesse quesito destaco com honrarias os tubistas que usam o transporte coletivo, os ônibus, os metrôs, que devoção à música, que odisséia apaixonada pela coadjuvância! 
Tubista, esse devotado, esquecido pelo jazz, eclipsado pelo trompete, pelo sax, até mesmo pela suave e tímida clarineta. Quem são os grandes tubistas da história que minha ignorância, quem sabe, não me deixa ver? Quais são as peças musicais que os tornaram eternos? Quem foi seu Chopin? Tantas perguntas intrigantes, até revoltantes, mas em meio a isso tudo fica a pergunta maior, a mais incômoda para muitos: o que é uma tuba?

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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Aparentes transcendências

Quatro amigos de décadas, prontos para delirar cervejas num bar. Chega um sacerdote vestido dignamente de preto e branco - não era o Garrincha, não era o garçom do Rossi - e nos oferece um copo americano de santidade. Recusamos, éramos demônios demais para um copo tão pequeno.

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Arrisco

Arrisco
um salto de risco
entre a levada
dos tambores do maracatu
enfim
arrasto
comigo o ritmo louco
d’África madrasta
medrando falsete
das caixas que declaram guerra.

A esperança, megera,
que corrompe a todos
com a necessidade
de algo menos do que o carnaval
e suficiente para um
novo auricular
nos sons
novo sol, se
somos poeira
Pó, destino dos bons
se do sol não souberem gestar manhã.

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Morro do tempo

Eu corro contra o tempo
Eu corro contra o vento.

Donde venho
O vento é filho do tempo.

Eu morro contra o tempo
Eu morro
Eu morro
Nesse tempo de subidas,
descer não é uma opção.

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