domingo, 18 de junho de 2017

O que você quiser que seja

Ontem, planejamento.
Hoje, experimento.
Amanhã, lamento.

VS

Em tempo?

A essa altura
O sonho já aterrissou
O poema emudeceu
O verso não decolou
A vida empobreceu.

VS

"Está morrendo hoje gente que nunca morreu antes"

Numa noite dessas que parecem dias,
num momento daqueles que parecem dois,
mm tio, mestre das clandestinidades e das mais excelsas banalidades, disse num fôlego só: está morrendo hoje gente que nunca morreu antes. 
E, súbito, a vida ganhou novo e gracioso sentido;
a morte, um riso contido.

VS

Tempo de poesia

Em tempos tão desprovidos de poesia,
ela, senhora do inverossímil e do sonho, é crucial 
como o dia para quem só noite tem,
como tempero para ter fascínio por alguém,
como aroma para beber bem,
como beijo para viver o corpo de outrem,
como saudade para embalar um trem,
como destino para saber de onde a saudade provém. 

VS

Um poema


É força para os desgraçados
É forca para os desabusados
É refúgio para os desregrados 
É norte para os desorientados
É sorte para os desafortunados
É boia para os desesperançados
É tudo para os desprovidos
É pouco para os desabalados
É nada para os desapegados
É ordem para os descabelados
É morte para os desalmados
É caos para os destemperados
É poesia e amor 
para toda ordem, 
tipo,
malta,
súcia,
classe,
feitio,
espécie, 
laia, 
horda,
tertúlia de desafinados.

VS

domingo, 11 de junho de 2017

Dia dos namorados

“A tristeza me recobre
E mando a cerveja goela abaixo
Peço uma bebida forte
Rápido
Para adquirir a garra e o amor de
Continuar!” 
(Charles Bukowski)

Era uma vez, um tempo em que inventaram um dia para celebrar o amor por meio de presentes. Os comerciantes amaram desde o primeiro momento o invento. Os donos de restaurantes regozijaram-se em êxtase feito de amor. Os motéis abriram os seus corações para o amor como um Taj Mahal rodoviário. As lojas de perfume jorravam cataratas de fragrâncias feitas de um amor inebriante... Já passava das 20h, ele esperava ansioso pela namorada dentro do carro que não respondia à mensagem enviada pelo celular. Dez minutos depois, o pai da namorada sai com a serenidade daqueles que dão por certo o cadafalso. O rosto na janela parecia distante. Sabe, não sei como dizer isso, mas minha filha não quer mais namorar você. Mas logo hoje, onde consigo uma namorada hora dessas? Silêncio consternado. Som de motor já vai longe e apressado. Não há tempo a perder.

VS

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sonho

Sonhava tanto e tão insistentemente com o seu velório, que, quando morreu, pensou que era um sonho.

VS

domingo, 23 de abril de 2017

Nada

No nada
Tudo encontramos
Menos 
Os fiapos do tecido velho e corriqueiro de que somos feitos.

VS

sábado, 22 de abril de 2017

Guerra

Guerra mesmo é quando a paz
torna-se uma utopia voraz.

VS

Com o passar dos anos


Quando a velhice em mim chegar
Quero ser o que sonhei na juventude
Sonhando o que serei na juventude que virá.

E o que sou hoje lá não serei mais
Enquanto estarei deixando de ser
Aquilo que deixei e que fui, atrás.

Dos meus amores, quero as cartas
E as doces lembranças dos beijos
E dos pecados que não vivemos.

Quando a velhice chegar, não quero sofrer
Pelos amores que não vivi por covardia
Ou pêlos que tive quando não os queria.

Ah, quando a velhice chegar
Quero dizer aos meus amigos:
- Fomos mais do que pensávamos.

E se não formos ainda assim direi:
- Sonhamos muito mais que fomos
E vivemos muito mais, porque sonhamos.

Serei doce pelas palavras e lembranças
Forte pelas duras batalhas vencidas
E ditoso pela bem cumprida jornada.

E ainda assim se eu nada dizer, ao morrer
E nada mais de mim restar quero apenas que

Digam que eu era alguém que sonhava.

(Lígia Prado - amiga, mestra e referência para a vida toda. Lígia é uma das pessoas mais importantes na minha vida. Suas palavras, seus versos, suas ironias, sua generosidade e suas inconfudíveis risadas ecoam em mim - sempre e intemsamente.)

Da série documental - Arqueólogos do futuro (Opus I - primeiras palavras)

Para Mario Quintana.

Num século porvir e insondável, quando os arqueólogos de uma outra e mais evoluída civilização fizerem suas primeiras descobertas sobre aquele povo solapado pelas suas próprias ferramentas, arruinado pela sua própria ganância destemperada e fugaz, punido pelo Deus mais implacável de todos que era chamado vagamente naqueles tempos de natureza, cego pela treva que sempre via no outro... 
Desde então, muito seria desvelado sobre nós, muito do que nós mesmos não vemos ou não queremos ver nesses cansados anos do século XXI. Inclusive eles foram mais acertivos e respeitosos do que nossos historiadores e teóricos do século XIX para trás, tão interessados em provar suas teorias e impressões, que ignoravam fatos e qualquer tentativa de imparcialidade para estudar o outro. Esse erro não foi cometido por nossos objetivos e precisos arqueólogos do futuro. Eles não foram renascentistas crueis nomeando a treva no outro. Eles não foram neoclassicistas arrogantes vendo perólas imperfeitas onde havia joias barrocas.
Diante de tal vislumbre, perguntas muitas se acotovelam na consciência de alguns poucos desse tempo fluido em que vivemos: de que eles nos chamarão quando os nomes que orgulhosamente nos chamamos hoje já tiverem perecido? O que sobrará de nós no futuro para ser estudado? O que pensarão de nós?
Perguntas fáceis para respostas certamente duras e amargas. Farão conosco o que nossa História fez com tantos povos reduzidos pela força da ignorância e do preconceito a termos e reducionismos que jamais poderiam os definir?
Nesta série documental, muitas dessas perguntas tão profundas quanto inúteis serão respondidas pelas mais verídicas, verdadeiras, francas, honestas, reais e autênticas suposições.Como a do mestre Mario Quintana, poeta, tradutor e jornalista, sobre o nosso futuro: 


O supremo castigo

Em todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de todas as metrópoles, existe – e quem é que não viu? – aquele cartaz...
De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio – até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos – estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo inteiro, aquela mesma palavra. E pensarão eles que Coca-Cola era o nome de nosso Deus!

Com admiração pelo mestre Quintana,

VS

Um dia

Um dia
Um dia desses
Um dia futuro
Arrumo coragem
Reúno tudo que tenho e que tive
De coragem e ousadia
Se for preciso, roubo, compro, peço emprestado para não mais devolver.

Um dia 
Um dia daqueles
Um dia quente
Faço o impensável
Não serei compreendido nem pelos mais próximos
Serei um pária na multidão
Serei tão invisível ou mais do que a moça da limpeza

Que moça?

VS

Vingança

Como um grito revolucionário, dia desses, ainda explodo de raiva e coloco o disco "A love supreme" do Coltrane para meus vizinhos ouvirem no mais alto e bom som em todos os aparelhos de som que existirem na minha casa. Causará revolta o meu ato terrorista-cultural, mas isso não é nada comparado ao tormento feito de onomatopeias, melodias cansadas e clichês que eles me obrigam a ouvir. Dia desses...me vingo. Certeza suprema.

VS

Revés

Era uma festa a vida daquele homem meio oblíquo, meio líquido. Festa era a ocasião em que ele fazia-se homem entre desumanidades, entre paradoxos. Até que veio aquele revés, até que veio aquele mal menor, aquela corrosão, aquela erosão tímida e rouca a que Leminski chamava poetica e apropriadamente de mentir verdades.

VS

Ontem

Não lembro de nada
Nada mesmo
Tudo que vivi ontem ficou
Oco
Ontem
Onde?

Sem gostos
Sem rostos
Sem outros

Naquela manhã hermética
Parecia
Haver um dia em que lembranças são cenários de um circo mambembe
Desmontáveis
Incineráveis
451 é um número que me vinha sempre a mente naquele manhã
Três números, três indagações, três rastros para nenhuma ocasião

Fora de casa
Pensei que um passeio numa manhã de fim de semana
Começo de outro nada
Seria bom, seria memorável
Mas enre minhas altas baixas filosofias
Meu existencialismo de padaria
Constatei, estupefato
Iluminado pelo sol meio besta, meio manso da manhã
Que ontem tinha ido dormir muito cedo
Antes do Jornal que já não mais assistia
Tinha sido uma semana daquelas.

VS

segunda-feira, 27 de março de 2017

Jazz

Dia de sombras mansas e de descanso. Jazz nos fones enquanto trabalho. Déjà-vu, paramnésia? Não, revivência. Mingus soava demônio em dia de paz. A paz do jazz é feita de homens zangados. A minha zanga enfim mina um mundo, ou aquilo que ele deveria ser e não se tornou. Enfim, mais um dia de ritmados cataclismos.

VS

Da série polônica: "Não dá voz ao que pensares, nem transforma em ação um pensamento tolo."

"Palavra é prata, silêncio é ouro." 
(Provérbio árabe)

Pensei em dizer, mas não disse. Disse que faria, mas não fiz. Passei a vida ensaiando mentiras que não contei, eis minha maior obra. Mentir que menti.

VS

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Numa madrugada infestada de calores e urgências

“I Know not what tomorrow will bring.”
(Fernando Pessoa, última frase dita por ele no leito de morte – trad. “Eu não sei o que o amanhã trará”) 

Numa madrugada infestada de calores e urgências, ele supôs pela primeira vez quais seriam os motivos que o afligiam desde épocas mais felizes, aparentemente, percebeu a pouca e tênue verdade que o impedia de ver a verdade. Era um monstro claro como a porta do quarto entreaberta, lucidez - megera – que nos arremessa sem aviso no fosso incipiente da consciência associada a um tipo raro de percepção, o bom senso. 


(Leitor, caso você não tenha se reconhecido nessas palavras, dispense essa leitura. Procure literatura mais feliz.)

Assim, em mais um dia sou humanamente forjado pelos rigores do cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano, cotidiano. The End, um ponto final é uma vida.

VS

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Seis razões sobre o porquê não gosto de praia e uma sobre o motivo de sempre ir

“E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível.” 
(Albert Camus)

Sei o quanto é paradoxal, mas fazemos tanto o que odiamos em nosso cotidiano, que pensei ser coerente continuar a odiar algo, ainda que no período de férias. Sei também que parece estranho alguém não gostar de praia, mas o fato é que eu detesto. Eis as minhas razões:

1 - normalmente as padarias são horríveis, ao menos não tive o prazer de ir a alguma que tivesse esse templo civilizatório que é a padaria, as boas padarias, em tempo. Parece mais uma das minhas estranhices, mas sempre desconfio de cidades ou locais que não tenham boas padarias, que não tenham bares para se beber uma boa cerveja sozinho com um livro e que tenham muitas farmácias. Acho sempre lugares que merecem a nossa desconfiança. Muitos devem pensar que talvez não haja cidades para meu exotismo no Brasil, mas consigo me virar bem em várias, ainda que BH tenha um lugar especial no meu peito. De toda forma, essencial mesmo são as duas primeiras condições, a terceira...bem, justifica-se pelo "slogan": "Coisas melhores para uma vida melhor através da química.".

2 - as pessoas tendem a relaxar e aproveitar silenciosamente o fato de estarem na praia, invejo um pouco essa competência, acho até monástica. Ficar com os pés na areia, aproveitando a brisa, cultivando o ócio ancestral, enfim... Infelizmente, não consigo. Já tentei, mas ficar sem fazer nada é terminantemente difícil para mim, gosto mesmo é de internet rápida, livros, computadores, supermercados bons, padarias civilizatórias, livrarias infinitas, quem sabe mesmo uma fumacinha de carros e um cinza concreto façam bem a minha mente. Talvez. Mas ócio praiano é definitivamente impossível para mim.

3 - irrita-me muito também a frequente impossibilidade de ler jornal de forma honestamente tranquila com rajadas de vento inesperadas que fazem a sessão de cultura sempre voar para longe e a de política ficar engordurada porque caiu na porção de uns camarões meio desconfiados. No final, muitos desses voos parecem proféticos, quase visões de um oráculo, mas a bem da verdade só quero mesmo é ler o jornal.

4 - a comida quase sempre de gosto e confecção duvidosas. Saliento que sempre o chamamento da fome fala mais alto que minhas exigências culinárias, mas como sempre meio contrariado. Talvez sejam as praias que vou com a família, algo entre as praias da massa e as de uma classe média esforçada. Penso que deve haver opções melhores, mas ainda distantes do bolso contido de professor. As cervejas também incomodam, sei que é uma chatice, mas num mundo em que Skol e Brahma reinam, Heineken é uma minoria perseguida e cervejas artesanais são forças estranhas, é difícil ser feliz.

5 - a música, a música, como esquecer... Ainda que reconheça a validade cultural do mais que se escuta na maioria das praias do Brasil, não é o que gosto de ouvir. O máximo que já tive a oportunidade de ouvir foi algo entre Jack Johnson e Bob Marley, que em um mundo repleto de Cláudias, Psiricos, Arrochas, Anitas, etc., parece um bálsamo, mas não é o bastante. 

6 - incomoda também a insistente cobrança para que você goste de praia, para que tenha um sorriso pendurado no rosto sempre, para que você fique no sol ou pegue uma corzinha quando já a tenho, para que você faça castelos de areia com os filhos quando eu prefiro fazê-los com Lego, entre outras cobranças que fazem dos melancólicos, mal humorados e afins seres estranhos a esses espaços de alegria salgada, ensolarada, arenosa e algo gratuita.

7 - entretanto, apesar de tudo listado acima, vou com frequência à praia, porque minha família, minha esposa e minhas filhas gostam por demais e como as amo mais do que odeio praia, submeto-me. Vejo isso como o meu ramadã, o meu jejum anual. Expiação dos pecados. Oportunidade de sublimar os erros. Tempo de praia.

Para Clarice, Isadora e Camila, por Estéfani Martins.

sábado, 5 de novembro de 2016

Uma lenda do baixo

Para Jaco

Os bares não ouviam a sua música. O ouvintes não assobiavam as suas melodias tão órfãs. Sua música não ganhou a eternidade. As gravadoras não sabiam da genialidade desse homem. Feito Cecil, era um incompreendido. Mesmo as vanguardas não o entendiam.
Eu era pouco além de um garoto, louco para ser o Charles Mingus, veja, não um Charles Mingus, o, veja bem, o Charles Mingus. Desde os tempos de banda da escola, eu era o estranho, pois não ouvia aquelas músicas que consumiam a alma e não o contrário, que é o certo. Foi quando, um homem entrou na loja de instrumentos – uma igreja para mim – pois minha mãe pensava que eu morava ou trabalhava lá, nenhum dos dois, eu era um fiel confesso e abnegado daquelas imagens, daquelas esculturas, daquele templo feito de guitarras, gaitas, trombones, saxofones....baixos. Ah! Os baixos, mulheres a ser tocadas e acariciadas, voz rouca e o jazz pouco para traduzir esses encontros. Enfim, lá, um cara e um baixo, contra-baixo, olha o respeito. Mulher grande, seios médios e equilibrados, quadril farto de boa progenitora e mãe dos ritmos que eu sonhava entoar. Ele disse que queria vendê-lo (-la) para mim. Ela parecia feliz. Foi uma pechincha que consumiu a economia de anos e todos viveram felizes entre um acorde e a falta de outro.

VS, ouvindo o pai de todos...Mingus, Mingus, Mingus.