sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Coluna Ouvidosnegros - Novo de novo

Coluna de um ouvinte dedicado da música negra. Aquela... que pariu o rock que forjou o metal pesado com que se fez – bem no centro do que é rápido e visceral - o som feito morte, feito pancada, feito demônio, feito lixo, feito tristeza que nos fez e nos faz ficar batendo cabeça pelas quebradas.

Novo de novo

Por Estéfani Martins
opera10@gmail.com
sambluesoul.blogspot.com
idearium.com.br

Versões de músicas consagradas já proporcionaram a humanidade momentos únicos tanto de horror tacanho e descartável como de prazer estético incomparável. Exemplificam a primeira tradição, as versões de gosto duvidoso de sambas históricos assassinados pelas interpretações de Emílio Santiago e Simone. Do outro lado, merecem honrosa lembrança as muitas versões inspiradas de velhos blues interpretados por bandas como Rolling Stones, Canned Heat, Cream, etc. Outra lembrança imediata é a versão do clássico “Maracatu atômico” do trovador moderno Jorge Mautner orquestrada pela banda símbolo do manguebeat Chico Science e Nação Zumbi, ou ainda a versão de “Bullet blue Sky” do U2 feita com a dureza e a potência do Sepultura, que, aliás, deu mais consistência à música do que seus autores conseguiram. Vale lembrar também as versões do Metallica feitas pelo ótimo quarteto Apocalyptica, especialmente a já antes belíssima “Fade to Black”, que ganhou uma versão irretocável, sem dizer nas versões arrebatadoras de “Master of Puppets”, “Seek and destroy”, entre outras. Outro grande momento em que músicas já excelentes foram reinventadas por obra de gênios como Elis Regina e Hermeto Pascoal foi no Festival de Montreaux, em 1979, quando eles deram cores novas a clássicos da música brasileira com interpretações maravilhosas e no improviso de “Corcovado”, “Asa branca” e “Garota de Ipanema”.
Sobre o mesmo tema, sempre ficava desconfiado de versões que muito modificaram especialmente o estilo original da música, mas tenho ficado surpreso com pancadas como “Killing in the name of” da sempre saudosa banda Rage Against the Machine, reinterpretada pelo inventivo grupo The Apples; ou “War Pigs” e “The Wizard” do eterno Black Sabbath, ou a quebradeira total do clássico “Moby Dick” do Led, ou ainda “Crostown traffic” do deus Jimi Hendrix e “Helter Skelter”, do álbum branco dos Beatles convertidas em petardos funk pela excelente e criativa banda Bonerama.
Enfim, versões ou regravações são formas de sentirmos novidade no que se imortalizou pela qualidade e pela atemporalidade e, assim, ficamos com dois ou mais olhares sobre uma mesma obra. Claro que isso pode também servir como caça-níqueis ou mesmo como “solução” para a falta de inspiração sempre a espreita até de grandes bandas. Entretanto, esses são os riscos necessários de se lidar com a novidade, especialmente quando o novo visita a maravilha dos velhos e monumentais long plays na estante.

Estéfani Martins, professor de Redação e Atualidades do INEICOC, coordenador da CCCult, produtor cultural, gaitista amador, palestrante nas áreas de cultura e multimeios.

Observação: esse artigo foi originalmente publicado no zine Páginas Vazias (www.paginasvazias.com.br)

domingo, 3 de maio de 2009

Seasick Steve

Indicação virtual da colaboradora Anna Clara do blog coletivo idearium.com.br, fiquei impressionado com o som cru e verdadeiro do "bom velhinho" em questão. Blues que se ouve com as vísceras. Felicidade certa. Ouçam com tudo.

Abraços harmônicos,

"Feh"

Estéfani Martins, ouvindo Manduka, Vitória régia

terça-feira, 21 de abril de 2009

Gravadoras versus Internet

Caros amigos e amigas,

Reproduzo aqui texto originalmente publicado pela ótima Revista de Música Brasileira, porque penso ser um debate necessário em tempos de liberdade digital próximo do abismo, assim leiam e reflitam sobre os importantes temas tratados no texto de forma didática e franca.

Forte abraço a todos,

Estéfani, ouvindo Ney Matogrosso e Rafael Rabelo, Retrato em branco e preto

Gravadoras versus Internet
Daniel Brazil

Um dos grandes ganhos para os pesquisadores e amantes da música brasileira foi a proliferação de sites e blogs de trocas de músicas. Preciosidades voltaram a circular, antigos LPs ganharam versão digital, e centenas de milhares de pessoas puderam ter acesso a um acervo inestimável, que certamente motivou muita gente a comprar, pedir e cobrar de lojistas, que por sua vez pressionaram gravadoras, que algumas vezes relançaram parte do acervo que mantinham fora de circulação por ser “pouco comercial”.
Mas evidentemente as trocas pela Internet não se limitam às gravações esgotadas. A facilidade de circulação de informações e downloads faz com que os fãs de música troquem gravações caseiras, registros ao vivo e, claro, músicas em catálogo e lançamentos recentes.
Um fã de música brasileira que more numa das centenas de pequenas cidades do interior do Brasil não tem acesso a lojas de disco, ou conta com uma oferta restrita apenas aos sucessos radiofônicos. Estas trocas aumentam a curiosidade, estimulam as vendas, promovem a divulgação.
Evidentemente, as gravadoras pensam o contrário. Preocupadas com a revolução digital inexorável que vem mudando as regras do comércio musical, tentam vetar, impedir, proibir a circulação de músicas pela Internet. Ou pelo menos buscam uma forma de taxar, lucrar com essa onda.
Há muitos e bons blogs de música brasileira na Internet. Não tenho vergonha de dizer que várias gravações que aqui comentei foram ouvidas pela primeira vez de forma gratuita, baixadas na rede. Não tenho dúvida de que muita gente leu, ficou interessado, foi até uma loja e comprou o CD. Não ganhei nada com isso, mas a gravadora certamente teve lucro. Ou seja: divulgar o produto de graça é bom, não parece?
Pois não é assim que pensam. Agora mesmo um dos melhores blogs de música brasileira, o Um Que Tenha (www.umquetenha.blogspot.com) está ameaçado de sair do ar. Veja o que escreveu no dia 24 de outubro de 2008 o responsável pelo riquíssimo acervo ali disponível:
“Assim como ocorreu com o Som Barato, o Um Que Tenha acaba de receber uma notificação de que publicou material que viola os direitos autorais, material este que foi retirado do ar, em junho passado, a pedido de Guilherme Viotti, da gravadora Biscoito Fino. Tal como ocorreu com o Som Barato, é o prenúncio de que, de uma hora para outra, o blog será retirado do ar.”
Se a ameaça se concretizar, será uma grande perda. Encontrei no Um Que Tenha discos raríssimos, obras que só haviam sido lançadas no exterior, músicas instrumentais brasileiras gravadas por jazzistas do mundo inteiro, raridades fora de catálogo e, claro, alguns lançamentos que fiz questão de divulgar aqui na Revista Música Brasileira.
Os tempos estão mudando, já dizia Bob Dylan, lá pelos anos 60. As gravadoras ainda não entenderam que a indústria cultural está em transformação, e os modos de produção, difusão e fruição de música estão circulando por novos caminhos. Não se conformam de não mais vender milhões de discos como no tempo dos Beatles, e caem no círculo vicioso de aumentarem o preço para compensar as perdas, vendendo ainda menos por causa disso.
Se eu fosse dono de gravadora, e trabalhasse com um produto tão valioso como é a boa música brasileira – como, aliás, faz a Biscoito Fino, tantas vezes aplaudida aqui na RMB – enviaria cada novo lançamento para alguns blogs fundamentais, apostando no efeito multiplicador desses voluntários e incansáveis divulgadores, acessados por um público muito especial.
Fechar um espaço que presta um serviço tão valioso de informação é burrice. Não vão vender mais discos por causa disso. Mais e mais blogs se abrirão no lugar daquele que fechou. Acreditar no contrário é como tentar segurar a maré com as mãos. Faz lembrar os versos de Paulo César Pinheiro em Pesadelo (parceria com Mauricio Tapajós):

“Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa”

Direitos autorais são muito discutíveis, principalmente num sistema onde sabidamente o autor fica com menos de 10% do resultado das vendas. No mundo inteiro este conceito vem passando por mudanças, muito por causa das novas mídias. Não é fechando canais de divulgação que o autor passará a ganhar mais. Felizmente, muito artista já percebeu isso, e coloca seu trabalho na rede, disponibiliza downloads, expõe sua cara nos You Tubes e My Spaces, correndo atrás do público. É por aí que vamos, pois como diz outro blogueiro, o Branco Leone, no futuro todo mundo vai ser famoso não por quinze segundos, mas para quinze pessoas. Se chegarmos a esse ponto, a existência de gravadoras – como conhecemos – não terá mais nenhum sentido.

©2009 Revista Música Brasileira. Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

BRBlues

Grande banda. Impressionaria em qualquer lugar do mundo. Blues de primeira. Uma felicitação especial ao amigo Claudinho Melazzo. Quebrou tudo na batera do show da BRBlues na calourada deste sábado.

Forte abraço,

Estéfani, ouvindo Cream, I feel free

terça-feira, 31 de março de 2009

Aforismos - #1 - por Tiago L. Garcia

Intrigantes idéias sobre música... Honestidade a toda prova, para além das convenções, da mesmice e do politicamente correto. Enfim, ótimo.

Grande abraço,

Estéfani, ouvindo Rage Against the Machine, Bulls on parade


I

Na música popular não há nada mais velho do que o culto à novidade e, no entanto, não há nada mais igualmente atual do que o culto ao velho…distintos tempos estes nossos.

É necessário incinerar as revistas, jornais, livros, guias, manuais, relógios e calendários…e, então, ouvir.

O que a “crítica musical” pode fazer é traçar mitos…imagine os seus, oras!

Uma farsa planejada apenas para nós mesmos não é mentirosa , certo?…Diga isto para os pastores tagarelas da indústria cultural.

Dizer que a cultura de hoje é infantil é uma grande bobagem; quando as crianças são estúpidas elas não ganham dinheiro e ficam famosas por isto!

A criança que é nossa cultura usa terno e gravata, anda armada e dirige carros importantes…“Uma criança prodígio, sem dúvida.”.

Sejamos, pois, crianças como Syd Barret!

II

Só existem dois tipos de música: a ruim e a boa…eu gosto de ambas!

Boa música é como vinho…eu prefiro cerveja.

Qual é o truque? A alegria infantil é, por vezes, grosseira!

Mas eu gosto de Bach: O milagre de transformar vinho Beaujolais Pinot Noir em Cerveja Belco!

III

Chesterton acerta em cheio, o prazer dos refrões é resíduo do enorme prazer infantil em correr, saltar, cair, levantar, correr novamente, e saltar mais uma vez e assim por diante, ad infinitum, ou até cansar (mas quem se cansa de ouvir Phil Spector, Ramones, Beatles(…)?)

O prazer de ouvir Bach: Maratona mística sobre as riscas do tapete da sala, com o coração na mão e lágrimas nos olhos.

Le plaisir d’écouter Erik Satie: Promanade matinal no país das maravilhas.

Das Vergnügen des Zuhörens Arnold Schonberg: Fuga desesperada através dos arames farpados de Auschwitz (eu acho).

The great pleasure of listening to John Dowland: Elegante trote, em nosso corcel majestoso, até o nobre coração da donzela da corte mais próxima.

O prazer de ouvir….Mose Allison: “Você chama de ‘jogging’, eu chamo de ‘correr por aí’”!

Até Você Concorda

Descobri, dia desses, que tenho uma veia poética, você sabe, dessas com sangue bem carregado de impurezas, de demônios liquefeitos que se exorcizam na literatura, dessa mesmo, de botequim. Outro dia, estourou, vazou, sangue errou pelos lugares mais imprevistos, fez-se a criatividade, fez-se o invento...desfez-se o homem. A arte sobre todas as coisas habita, suprema, mesmo sobre a vida, mesmo sobre a morte. Ela é mais que isso tudo, ainda que prole de nossas facetas mais humanas. Nela, a última fronteira da verdade, que é versão, que é muitas, que é dizer não, esconde-se.

VS

Silêncio

.
Vida, soma indefinida e aparente de pontos finais, entre exclamações e interrogações, reticências, elas sim, reinam absolutas. Certo, só o silêncio.

VS

Dia desses

Dia desses estava aqui
com os meu botões
pensando...
De súbito
um batuque sob na cabeça
bagunça meus botões
liberta-os
da mesmice das minhas idéias
escraviza-os.
Corações mais perto da África pulsam mais forte.

VS


Bela e singela mostra da inovação tropicalista: Os Mutantes. Não há nome mais apropriado para uma banda inscrita num movimento que mudou para sempre a face da música brasileira e mundial. Inconformismo estético, antropafagia legítima e ousadia conceitual flertam neste clássico da música popular brasileira.

Ajoelhem-se, curvem-se a majestade da arte brasileira.

Grande abraço,

Estéfani, ouvindo Rage Against the Machine, Renegades of funk

segunda-feira, 30 de março de 2009

Salve Chico Science

Na música "A Praieira", nosso nobre e saudoso mestre Chico dizia "Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor". Sobre essa passagem, às vezes, reflito que... é cedo.

Um abraço,

Estéfani, ouvindo Grand Funk Railroad, Time machine

Um dia

Para os psiquiatras,

Um dia ainda fico lúcido e começo a correr por aí sem rumo feito um louco.

VS

quarta-feira, 25 de março de 2009

Coluna Ouvidosnegros Nº 3

Coluna Ouvidosnegros
Coluna de um ouvinte dedicado da música negra. Aquela... que pariu o rock que forjou o metal pesado com que se fez – bem no centro do que é rápido e visceral - o som feito morte, feito pancada, feito demônio, feito lixo, feito tristeza que nos fez e nos faz ficar batendo cabeça pelas quebradas.

Música imprevista brasileira

Por Estéfani Martins
opera10@gmail.com
sambluesoul.blogspot.com

Há algumas semanas, em uma das minhas regulares viagens de carro, ouvia para não pegar no sono um clássico do Sepultura, o “Roots”, disco fundamental da banda mineira que unia o metal a percussões indígenas e africanas. Enquanto isso, pensava de onde poderia ter nascido essa coragem inovadora de levar o berimbau, Carlinhos Brown e índios xavantes para o muitas vezes sectário universo do Metal. Numa volta às origens do estilo, ao sagrado Black Sabbath, ou mesmo antes e depois deles, não conseguia ver inspiração para a revolução proposta pelo Sepultura neste disco de 1996.
Ao longo da audição do disco, lembrei-me de alguns debates que havia participado sobre a Tropicália, em função deles e de muitas leituras sobre o assunto feitas no ano de 2008, pude entender a extensão da influência desse movimento nascido da união improvável entre ritmos populares brasileiros (samba, maracatu, embolada, etc.); música pop norte-americana e inglesa, em especial os Beatles e seu Sargent Pepper’s; canção de protesto e antropofagia. Nesse momento, fim da década de 1960, a música popular brasileira vivia uma ebulição já mais vista tanto por causa do início do reconhecimento pelos jovens dos ritmos fundadores de nossa tradição musical como do estabelecimento de canal de comunicação mais rápido e dinâmico com o que acontecia fora do Brasil, desta festa de estímulos nascem músicas de absoluta ousadia estética, por que não política, como Batmacumba. “Roots” é filho torto dessa ousadia, que, aliás, revolucionou a música eletrônica, inspirou o Manguebeat, ou seja, ensinou a todos misturar ritmos sem culpa e sem preconceito. O legado especialmente do disco “Tropicália ou Panis et Circensis” é ter feito a cultura brasileira aceitar definitivamente a origem étnica miscigenada que a determinou, mais do que aceitar, usar com dignidade e de forma criativa o fato de termos nascido em um país de paradoxos e amalgamas, os quais justamente são a base de nossa cultura musical desde então.
Comparada à influência da música brasileira em todo o mundo atualmente, só se pode citar a norte-americana, ainda que de lá venha referências importantes e fundamentais para a música desde então como o Blues, o Country, o Jazz, o Rock, o Funk, o Soul e o RAP; não é em função da tradição musical norte-americana que a música de inúmeros países desenvolveu esse viés imerso no signo da mistura, da mescla e da experimentação que a produção musical atual, especialmente a independente, tem como sua principal característica.
Apesar de recebido à época com certa resistência pelos fãs, o disco “Roots” fundou-se como uma linha divisória na história do Metal e influenciou não poucas bandas posteriormente. Cumpriu, assim, uma função de norte, de orientação para a música feita neste planeta, como, aliás, outros discos antes dele: “Canção do amor demais”, Elizeth Cardoso; “Coisas”, Moacir Santos; “Tábua de esmeralda”, Jorge Ben; “Mutantes”, Mutantes; “Secos e Molhados”, Secos e Molhados, “Da lama ao caos”, Nação Zumbi; entre felizmente tantos outros. Eis os arquitetos da música brasileira, mais... da música mundial.

Estéfani Martins, professor de Redação e Atualidades do INEICOC, coordenador da CCCult, produtor cultural, gaitista amador, palestrante nas áreas de cultura e multimeios.

sábado, 21 de março de 2009

Ao mestre Moacir Santos



Vinicius de Moraes homenageou devidamente o grande "arquiteto da música brasileira" Moacir Santos no "Samba da Bênção" (com Baden Powell): "Moacir Santos/ tu que não és um só, és tantos/ como este meu Brasil de todos os santos").


Samba da Bênção
Vinicius de Moraes

Composição: Vinicius de Moraes / Baden Powell

Cantado

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Falado

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Cantado

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Falado

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Falado

Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração.

Bossa Nova sempre nova



É indiscutível o tamanho colossal da Bossa como veículo privilegiado para se mostrar a grandiosidade da música brasileira e o porquê de nós termos influenciado sobremaneira a música mundial desde o breve século XX, ou mesmo antes desde o samba da Pequena África ou a música revolucionária de Chiquinha Gonzaga, porque elas ecoam e reluzem na maioria das Bossas, mesmo que de mansinho, desfarçadamente. Ouçam e orgulhem-se.

Um abraço,

Estéfani, ouvindo Mutantes, Batmacumba

Creme na encruzilhada, a reedição de um clássico



Uma das maiores bandas de todos os tempos, em performance histórica. Três grandes encontraram-se numa encruzilhada para parir esse petardo que deixaria o nobre Robert Johnson orgulhoso. Baker, Bruce e Clapton; talvez só os Beatles e o Led, tivesse gênios dessa magnitude produzindo música ao invés de se afogarem apenas nos próprios egos.

Curta o clássico. O power trio Cream, toca o clássico Crossroads do mestre atemporal James Brown.

Forte abraço,

"Feh"

Estéfani, ouvindo Cream, White Room

Rory, eterno



Eis um digno companheiro de instrumento do deus Hendrix. Grande guitarrista irlandês, de preferências requintadas como um bom Jameson e a clássica e fundamental Guiness. Santo homem. Deus Hendrix o tenha.

Abraços a todos,

Estéfani, ouvindo Cream, Crossroads

Coluna Ouvidosnegros Nº 2

Festivais de revoluções
Por Estéfani Martins

Os festivais sempre tiveram uma importância capital na evolução da música no século XX especialmente. Iniciativas como o Abril pro Rock, o Mada, o Calango, o Jambolada, o Vaca Amarela são ar fresco num mundo poluído por superpropduções culturais, mais focadas no invólucro do que no conteúdo. Por outro lado, os festivais já tiveram um papel maior, ligado a mudanças nos costumes e nas mentalidades. Quando se fala em festivais de música popular é natural lembrar de Woodstock, Monterey, Wight, Montreaux, Record, FIC entre tantos outros que conformaram em vários aspectos inclusive a forma como pensamos e agimos. Infelizmente, alguns festivais cruciais para o desenvolvimento da música e da humanidade têm sido esquecidos, dentre eles destaco o de Newport, nos EUA, que, além de ter proporcionado inúmeras apresentações históricas de nomes como Muddy Waters, Billie Holiday, Miles Davis, T-Bone Walker, possibilitou que nos EUA das décadas de 1950 e 1960 ocorresse uma união antes inimaginável de figuras importantes do country music com deuses caídos do Blues, como Son House.

Festivais como o de Newport estimularam o convívio entre negros e brancos num país, que em grande parte da sua região sul, padecia das chamadas leis “Jim Crow”, muita assemelhadas às orientações ideológicas do “apartheid” sul-africano. Nesse tempo, ver tantos negros sendo aplaudidos e reverenciados por uma platéia de maioria branca, além dos encontros entre astros de estilos filhos de uma mesma mãe, mas, muitas vezes, oponentes é a prova de que a música, unida a pessoas com idéias bacanas, é uma força poderosa.

Vivemos outro tempo, é verdade, em que as fronteiras a serem quebradas por festivais como o Jambolada são fundamentalmente estéticas e de mercado. Isso porque o maior trabalho foi em grande parte feito. Esse é o legado desses tempos de equipamentos precários, de apresentações grandiosas e de fé em um mundo menos babaca e sem graça. Essa é aposta que renovamos simplesmente vindo a eventos de música dita independente, ainda que eu prefira chamar de música dependente... de quê? De quem? De nós que batemos cabeça, que fazemos moshs ou que simplesmente contribuímos com essa nova ordem indo aos shows de nossas bandas preferidas e ficando num canto tomando uma cevinha, vendo uma nova revolução rolar.

Estéfani Martins, professor de Redação e Atualidades do INEICOC, coordenador da CCCult, produtor cultural, gaitista da banda Original Urublues Band, palestrante nas áreas de cultura e multimeios.

Coluna: Ouvidosnegros Nº 1

Estefani Martins
opera10@gmail.com
sambluesoul.blogspot.com

Coluna de um ouvinte dedicado da música negra. Aquela... que pariu o rock que forjou o metal pesado com que se fez – bem no centro do que é rápido e visceral - o som feito morte, feito pancada, feito demônio, feito lixo, feito tristeza que nos fez e nos faz ficar batendo cabeça pelas quebradas.

Nada mais óbvio, mas nada mais obrigatório do que começar essa coluna tão ambiciosa – vale dizer, falar de Blues, Funk, Soul e Rock antes dos deuses do Black Sabbath colocarem mais peso e mais escuridão no som – com aquele que é chamado de mestre, de rei, de vagabundo e de demoníaco, responsável por transformar a música do século XX ao gravar num quarto de hotel no Mississipi em duas sessões históricas nos anos de 1936 e 1937 os vinte e poucos Blues mais conhecidos de todos os tempos. Refiro-me ao mestre Robert Johnson, mulherengo, músico incomparável, briguento e genial, que aprendeu a tocar violão e morreu misteriosamente, o que criou em torno dele uma lenda que só rivaliza com o seu talento em tamanho e longevidade.

Certamente, não há guitarrista que mesmo sem querer ou saber não tenha dedilhado alguns acordes poderosos desse guitarrista espontâneo, inspirado e que, segundo muitos, ele próprio e Son House, fez um pacto com o demônio para aprender a tocar de forma até aquele momento inédita. Tal era seu talento que o maior de todos – Jimi Hendrix - fez por diversas vezes reverências apaixonadas ao velho mestre.
Esse pacto foi feito numa encruzilhada, ele dizia. Muitos acreditam nisso porque em cerca de um ano de sumiço, passou de músico medíocre a gênio do instrumento. Assim, nasceu a tal lenda, talvez até mesmo o primeiro passo pelo nosso continente do Black Metal (sic). Este bluesman de infância difícil e incerta é autor de clássicos como “Crossroads”, “If a had a possession over judgement day”, “Love in vain”, dentre tantos outros petardos viscerais influenciados por aqueles considerados ídolos pela lenda do blues: Charley Patton, Son House, Lonnie Johnson, Skip James e Kokomo Arnold.

O rei do Delta Blues foi reverenciado e tocado por bandas e intérpretes como Led Zeppelin, Muddy Waters, Jimi Hendrix, White Stripes, Cowboy Junkies, Ben Harper, etc., além, é claro, das já clássicas versões dos Rolling Stones para "Love In Vain" e "Stop Breaking Down", John Mayall para "Rambling On My Mind", Cream para "Four Until Late" e "Crossroads", Eric Clapton para "Steady Rollin Man" e Foghat para "Terraplane Blues".

Pedra fundamental para se estudar o Blues em tudo que ele tem de soturno, de melódico, de revolucionário e de proximidade com o que chamamos, em alguns casos, de intimidade com o demônio. Muito antes de todas as bandas influenciadas por idéias anticristãs ou demoníacas, Robert Johnson mostrava-se como aparentado, como amigo do diabo. São exemplos as músicas "Crossroads", "Me And The Devil" e "Hellhound On My Trail". Diferente das razões de hoje, o culto a imagem do demônio no Blues é mais um ato político do que religioso ou místico, até porque a idéia era de todos os modos contestar e criticar a vida imposta violentamente pelos brancos contra negros mesmo depois da abolição da escravidão nos EUA. Era uma forma de se dizer o que a maioria não queria ouvir, uma forma apaixonada de comunicar uma visão diferente e subversiva da idéia de bem e mal, até porque, se o bem fosse representado verdadeiramente pela hipocrisia ideológica do cidadão médio do sul dos EUA até o início do século XX, qualquer um com sanidade mental seria torcedor de carteirinha do capeta.

Essa questão talvez ajude a entender a fascinação de tantas bandas com o tema, como é o caso de parte dos integrantes do Kinks, de bandas como Black Sabbath, Kiss, Mercyful Fate, Venom, dentre muitas outras.

Então, boa audição, boa viagem. Ouçam também os cinco CDs da série “Blues: a musical journey” produzidos por Martin Scorsese e vejam os vídeos sobre o Robert Johnson no youtube, em especial, o que conta a história dele em ritmo de Repente misturado com Blues, presente no álbum Navegaita do grande Flávio Guimarães, um dos melhores gaitistas da atualidade.
É só.

Coluna Ouvidosnegros: uma explicação ou uma escapada

Coluna de um ouvinte dedicado da música negra. Aquela... que pariu o rock que forjou o metal pesado com que se fez – bem no centro do que é rápido e visceral - o som feito morte, feito pancada, feito demônio, feito lixo, feito tristeza que nos fez e nos faz ficar batendo cabeça pelas quebradas.

Feh

Estéfani Martins, ouvindo Rory Galagher, Used to be

Coluna Ouvidosnegros

Caros amigos e leitores,

Reinicio minhas postagens neste fantasmagórico blog com alguns textos publicados no zine Páginas Vazias. Espero publicar a partir de agora de forma mais regular, mas como dizia o eterno Mestre Yoda, sumo sacerdote de nerds, bitolados e amantes da arte pop por aí, em todos os buracos desta galáxia e das próximas: "Faça ou não faça. Não existe tentar."

Abraços a todos,

Feh

Estéfani Martins, ouvindo Rory Galagher, Maybe I will