quarta-feira, 5 de julho de 2017

Sobre a matéria do tempo

Ontem, tarde ainda era cedo.
É denotativo o verso acima,
o tempo que é conotativo.
Tempo é poesia.

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segunda-feira, 3 de julho de 2017

II - Num mundo de imposições, peço

_Posso ficar sentado quando for imprescindível estar em pé? Não é por desdém ou algo assim, é que estar em pé me causa náuseas, porque estive de joelhos uma vida inteira. 
_Estar sentado é a primeira etapa da minha recuperação.

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I - Num mundo de imposições, peço


_ Um café, por favor, sem açúcar e com afeto.

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Todo caos


Todo caos é o avesso de todo cais.
É um abraço fraterno e amável de satanás.
É ilha cercada de ilhas e distâncias.
É porto sem navio, sem rio e sem mar.
É toureiro sem brio.
É a medida do que não traz
nem frio, nem calor, nem nada mais.
É confusão, é desilusão previsível e inexorável.
É estar passado no presente.
É nadar num loop eterno e estático.
É colossal como um vácuo de vazios
num caos feito de luzes e silêncios e letras e mensagens entre dois amores separados pelos seus telefones.

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Dia desses

“A loucura (...), objeto de meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.” 
(Simão Bacamarte, “O Alienista”, Machado de Assis)

Ainda faço uma loucura
e fico normal.

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Sobre a necessidade de poesia nos trópicos - Opus tropicalis II

“O ato de entender é vida.”
(Aristóteles)

Em tempos denotativos, poesia é sustento
para o que não tem preço, nem custo
Em tempos sombrios, poesia é trópico
quente e fraterno esperando o encontro e o beijo
Em tempos prosaicos, poesia é o extraordinário
vento que leva adiante asas de homens feitos de concreto, dor e medo.

VS

domingo, 2 de julho de 2017

Sobre a necessidade de poesia nos trópicos - Opus tropicalis I


Poesia é tão necessária quanto o alimento
Quanto o pão para o homem
Quanto a farinha para o pão
Quanto o trigo para a farinha
Quanto a semente para o trigo
Quanto a natureza para a semente
Quanto o homem para a vida quantificada

Quanto?

Quanto pão.

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Poeminha de domingo


Ontem
Já era tarde
Alarde
A segunda amanheceu.

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domingo, 18 de junho de 2017

O que você quiser que seja

Ontem, planejamento.
Hoje, experimento.
Amanhã, lamento.

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Em tempo?

A essa altura
O sonho já aterrissou
O poema emudeceu
O verso não decolou
A vida empobreceu.

VS

"Está morrendo hoje gente que nunca morreu antes"

Numa noite dessas que parecem dias,
num momento daqueles que parecem dois,
um tio, mestre das clandestinidades e das mais excelsas banalidades, disse num fôlego só: está morrendo hoje gente que nunca morreu antes. 
E, súbito, a vida ganhou novo e gracioso sentido;
a morte, um riso contido.

VS

Tempo de poesia

Em tempos tão desprovidos de poesia,
ela, senhora do inverossímil e do sonho, é crucial 
como o dia para quem só noite tem,
como tempero para ter fascínio por alguém,
como aroma para beber bem,
como beijo para viver o corpo de outrem,
como saudade para embalar um trem,
como destino para saber de onde a saudade provém. 

VS

Um poema


É força para os desgraçados
É forca para os desabusados
É refúgio para os desregrados 
É norte para os desorientados
É sorte para os desafortunados
É boia para os desesperançados
É tudo para os desprovidos
É pouco para os desabalados
É nada para os desapegados
É ordem para os descabelados
É morte para os desalmados
É caos para os destemperados
É poesia e amor 
para toda ordem, 
tipo,
malta,
súcia,
classe,
feitio,
espécie, 
laia, 
horda,
tertúlia de desafinados.

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domingo, 11 de junho de 2017

Dia dos namorados

“A tristeza me recobre
E mando a cerveja goela abaixo
Peço uma bebida forte
Rápido
Para adquirir a garra e o amor de
Continuar!” 
(Charles Bukowski)

Era uma vez, um tempo em que inventaram um dia para celebrar o amor por meio de presentes. Os comerciantes amaram desde o primeiro momento o invento. Os donos de restaurantes regozijaram-se em êxtase feito de amor. Os motéis abriram os seus corações para o amor como um Taj Mahal rodoviário. As lojas de perfume jorravam cataratas de fragrâncias feitas de um amor inebriante... Já passava das 20h, ele esperava ansioso pela namorada dentro do carro que não respondia à mensagem enviada pelo celular. Dez minutos depois, o pai da namorada sai com a serenidade daqueles que dão por certo o cadafalso. O rosto na janela parecia distante. Sabe, não sei como dizer isso, mas minha filha não quer mais namorar você. Mas logo hoje, onde consigo uma namorada hora dessas? Silêncio consternado. Som de motor já vai longe e apressado. Não há tempo a perder.

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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sonho

Sonhava tanto e tão insistentemente com o seu velório, que, quando morreu, pensou que era um sonho.

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domingo, 23 de abril de 2017

Nada

No nada
Tudo encontramos
Menos 
Os fiapos do tecido velho e corriqueiro de que somos feitos.

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sábado, 22 de abril de 2017

Guerra

Guerra mesmo é quando a paz
torna-se uma utopia voraz.

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Com o passar dos anos


Quando a velhice em mim chegar
Quero ser o que sonhei na juventude
Sonhando o que serei na juventude que virá.

E o que sou hoje lá não serei mais
Enquanto estarei deixando de ser
Aquilo que deixei e que fui, atrás.

Dos meus amores, quero as cartas
E as doces lembranças dos beijos
E dos pecados que não vivemos.

Quando a velhice chegar, não quero sofrer
Pelos amores que não vivi por covardia
Ou pêlos que tive quando não os queria.

Ah, quando a velhice chegar
Quero dizer aos meus amigos:
- Fomos mais do que pensávamos.

E se não formos ainda assim direi:
- Sonhamos muito mais que fomos
E vivemos muito mais, porque sonhamos.

Serei doce pelas palavras e lembranças
Forte pelas duras batalhas vencidas
E ditoso pela bem cumprida jornada.

E ainda assim se eu nada dizer, ao morrer
E nada mais de mim restar quero apenas que

Digam que eu era alguém que sonhava.

(Lígia Prado - amiga, mestra e referência para a vida toda. Lígia é uma das pessoas mais importantes na minha vida. Suas palavras, seus versos, suas ironias, sua generosidade e suas inconfudíveis risadas ecoam em mim - sempre e intemsamente.)

Da série documental - Arqueólogos do futuro (Opus I - primeiras palavras)

Para Mario Quintana.

Num século porvir e insondável, quando os arqueólogos de uma outra e mais evoluída civilização fizerem suas primeiras descobertas sobre aquele povo solapado pelas suas próprias ferramentas, arruinado pela sua própria ganância destemperada e fugaz, punido pelo Deus mais implacável de todos que era chamado vagamente naqueles tempos de natureza, cego pela treva que sempre via no outro... 
Desde então, muito seria desvelado sobre nós, muito do que nós mesmos não vemos ou não queremos ver nesses cansados anos do século XXI. Inclusive eles foram mais acertivos e respeitosos do que nossos historiadores e teóricos do século XIX para trás, tão interessados em provar suas teorias e impressões, que ignoravam fatos e qualquer tentativa de imparcialidade para estudar o outro. Esse erro não foi cometido por nossos objetivos e precisos arqueólogos do futuro. Eles não foram renascentistas crueis nomeando a treva no outro. Eles não foram neoclassicistas arrogantes vendo perólas imperfeitas onde havia joias barrocas.
Diante de tal vislumbre, perguntas muitas se acotovelam na consciência de alguns poucos desse tempo fluido em que vivemos: de que eles nos chamarão quando os nomes que orgulhosamente nos chamamos hoje já tiverem perecido? O que sobrará de nós no futuro para ser estudado? O que pensarão de nós?
Perguntas fáceis para respostas certamente duras e amargas. Farão conosco o que nossa História fez com tantos povos reduzidos pela força da ignorância e do preconceito a termos e reducionismos que jamais poderiam os definir?
Nesta série documental, muitas dessas perguntas tão profundas quanto inúteis serão respondidas pelas mais verídicas, verdadeiras, francas, honestas, reais e autênticas suposições.Como a do mestre Mario Quintana, poeta, tradutor e jornalista, sobre o nosso futuro: 


O supremo castigo

Em todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de todas as metrópoles, existe – e quem é que não viu? – aquele cartaz...
De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio – até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos – estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo inteiro, aquela mesma palavra. E pensarão eles que Coca-Cola era o nome de nosso Deus!

Com admiração pelo mestre Quintana,

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Um dia

Um dia
Um dia desses
Um dia futuro
Arrumo coragem
Reúno tudo que tenho e que tive
De coragem e ousadia
Se for preciso, roubo, compro, peço emprestado para não mais devolver.

Um dia 
Um dia daqueles
Um dia quente
Faço o impensável
Não serei compreendido nem pelos mais próximos
Serei um pária na multidão
Serei tão invisível ou mais do que a moça da limpeza

Que moça?

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